Alucinações em IA são inevitáveis: como melhorar isso?

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Alucinações em IA são inevitáveis pelo design. Como podemos melhorar isso?

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que os modelos de inteligência artificial vão parar de alucinar assim que ficarem maiores, mais treinados e mais inteligentes. É uma ideia que parece razoável à primeira vista. Afinal, se o modelo aprende com mais dados e recebe mais feedback humano, faz sentido imaginar que ele vai errar cada vez menos. O problema é que essa visão ignora algo mais profundo: as alucinações não são apenas um bug de treinamento. Elas são uma consequência direta da arquitetura que sustenta praticamente todos os grandes modelos de linguagem que usamos hoje.

Entender isso muda completamente a forma como desenvolvemos, implantamos e confiamos em sistemas de IA, especialmente no contexto de desenvolvimento mobile agêntico, onde os erros não ficam apenas no chat e têm impacto real em produção.

O que é uma alucinação, afinal?

Simplesmente, uma alucinação em IA ocorre quando um modelo de linguagem gera uma resposta fluente, coerente e aparentemente plausível, mas que é incorreta, fabricada ou desconectada da realidade. Diferente de um erro comum, a alucinação vem embrulhada em confiança. O modelo não diz "não sei". Ele responde com a mesma segurança com que responderia uma pergunta sobre a capital da França.

Conforme analisado pela Communications of the ACM em um artigo dedicado ao tema, os modelos de linguagem de grande escala aprenderam a representar o conhecimento do mundo a partir de volumes massivos de texto da internet, podendo reproduzir fielmente conceitos aprendidos no treinamento, mesmo que a informação original não fosse precisa. Em outras palavras, o modelo não distingue verdade de coerência estatística. Ele maximiza a segunda, não a primeira.

Portanto, quanto mais um modelo é capaz de gerar texto sofisticado, mais difícil fica identificar onde termina a informação confiável e começa a fabricação convincente.

Por que a arquitetura transformer é estruturalmente probabilística

Fundamentalmente, os transformers operam como motores de previsão de próximos tokens. Para cada posição na sequência de texto que está sendo gerada, o modelo calcula a distribuição de probabilidade sobre todo o vocabulário e seleciona o token mais provável, ou uma amostra próxima a ele. Esse processo é repetido token por token, acumulando decisões probabilísticas em cada etapa.

Consequentemente, mesmo com a temperatura zerada, configuração que torna o modelo o mais determinístico possível, o sistema ainda pode escolher um token incorreto se a probabilidade associada ao token errado for mais alta do que deveria ser. Não existe, na arquitetura transformer atual, um mecanismo interno que verifique se o que está sendo gerado é factualmente verdadeiro antes de gerar.

Como explicado pela Communications of the ACM em análise sobre criatividade e alucinação nos sistemas generativos, mesmo em configurações de baixa temperatura com maior determinismo e reprodutibilidade, o modelo pode alucinar caso tokens incorretos recebam uma probabilidade mais alta durante a inferência. Ou seja, a aleatoriedade não é o único caminho para o erro: a própria distribuição aprendida pode ser imprecisa.

Isso tem uma implicação direta e importante: por mais que os laboratórios de IA melhorem seus modelos com técnicas como Retrieval-Augmented Generation, chain-of-thought, raciocínio estruturado e alinhamento por feedback humano, o sistema continua sendo probabilístico em sua natureza mais fundamental. Reduzir alucinações é possível. Eliminá-las completamente, com a arquitetura atual, não é.

O que a própria OpenAI reconhece nos seus modelos mais avançados

Curiosamente, até os laboratórios que mais investem na evolução dos modelos reconhecem a persistência do problema. No system card oficial dos modelos o3 e o4-mini da OpenAI, a empresa apresenta avaliações de alucinação usando benchmarks como SimpleQA e PersonQA, dois conjuntos de dados projetados especificamente para elicitar esse comportamento.

Os resultados são reveladores. O o3, um dos modelos mais sofisticados já publicados, apresenta taxa de alucinação de 51% no SimpleQA e 33% no PersonQA. O próprio documento reconhece que o o3 tende a fazer mais afirmações do que modelos anteriores, o que aumenta tanto os acertos quanto os erros fabricados. E o o4-mini, modelo menor, apresenta taxas ainda mais altas, com 79% de alucinação no SimpleQA, resultado esperado dado que modelos menores têm menos conhecimento de mundo e tendem a alucinar com mais frequência.

Evidentemente, esses números não significam que esses modelos sejam ruins. Eles são extraordinariamente capazes em diversas tarefas. O que os dados mostram é que mesmo a fronteira mais avançada da tecnologia atual ainda convive com alucinações em uma fração relevante dos casos. E isso não é uma questão de falta de esforço ou investimento: é um limite estrutural que o campo ainda não solucionou de forma definitiva.

Por que isso é crítico no desenvolvimento mobile agêntico

Naturalmente, em uma conversa casual com um chatbot, uma alucinação ocasional é irritante, mas tolerável. O usuário percebe o erro, corrige e segue em frente. Contudo, em um ambiente de desenvolvimento mobile agêntico, o cenário é completamente diferente.

Nesse contexto, um agente de IA toma decisões em sequência, escreve e executa código, interage com simuladores de Android e iOS, lida com estados de interface que mudam dinamicamente e produz artefatos que vão para produção. Cada alucinação em uma etapa intermediária pode cascatear em erros difíceis de rastrear, comportamentos inesperados em dispositivos reais e bugs que chegam ao usuário final.

Além disso, o ambiente mobile adiciona camadas específicas de complexidade. Simuladores têm estados visuais e temporais que mudam a cada interação. Fluxos de UI dependem de contexto e hierarquia de componentes. Permissões, ciclos de vida de aplicativos e variações entre versões de sistemas operacionais criam um espaço de possibilidades enorme que os modelos precisam navegar com precisão.

Portanto, confiar cegamente em um agente de IA para conduzir tarefas mobile de ponta a ponta, sem uma camada de validação estruturada, é aceitar que os erros vão acontecer e que parte deles pode ser difícil de detectar antes que chegue longe demais.

Como estamos tentando melhorar isso hoje

Felizmente, a comunidade de pesquisa e os profissionais que trabalham na interseção de IA e engenharia de software têm desenvolvido abordagens práticas para reduzir o impacto das alucinações, mesmo sem eliminá-las estruturalmente.

Entre as estratégias mais adotadas estão o RAG, que ancora as respostas do modelo em documentos verificados externos ao parâmetro aprendido; o uso de múltiplos agentes especializados que validam uns aos outros; a verificação de saídas por camadas de raciocínio explícito; e o design de prompts com contexto denso e exemplos negativos que reduzem a margem para fabricação.

Adicionalmente, técnicas como a estimativa de entropia semântica permitem identificar respostas de baixa confiança ao comparar variações nas respostas do modelo a perguntas equivalentes. Se o modelo responde de formas muito diferentes à mesma pergunta reformulada, a probabilidade de alucinação é alta. Essa é uma abordagem promissora, mas que ainda exige infraestrutura específica para funcionar em escala.

Contudo, todas essas técnicas operam sobre o sintoma, não sobre a causa. Elas tornam os sistemas mais confiáveis na prática, o que já é muito valioso. Mas não resolvem a questão central: o modelo continua sendo probabilístico e nenhuma dessas camadas garante, de forma comprovável, que o agente não vai alucinar em um momento crítico.

O protocolo que nasceu para levar isso ao nível seguinte no mobile

É nesse contexto que um projeto ainda em estudos e testes internos começa a tomar forma. O ESVP, desenvolvido em conjunto pela Entropy Lab e pelo desenvolvedor mobile sênior Anderson Melo, não tenta resolver a natureza probabilística dos modelos de linguagem, algo que, como discutimos, é uma limitação estrutural da arquitetura atual. Em vez disso, o protocolo propõe uma camada diferente de solução: a virtualização do ambiente mobile em que o agente opera.

A ideia central do ESVP é criar um contrato de transcript estruturado entre o agente de IA e o ambiente mobile. Ao definir um esquema canônico de transcrição, helpers de replay e validação, e workers públicos para fluxos de simulador Android e iOS, o protocolo oferece ao agente uma superfície de execução que pode ser observada, reproduzida e verificada com precisão. Em vez de confiar que o agente interpretou corretamente o estado do simulador, o protocolo registra o estado, a ação tomada e o resultado, criando uma trilha auditável de cada decisão.

Consequentemente, quando o agente alucina sobre o estado da interface ou toma uma decisão baseada em uma premissa incorreta, o protocolo tem os dados necessários para identificar e recuperar o erro antes que ele vá adiante na cadeia de execução. Não é imunidade à alucinação. É resiliência estruturada contra ela.

Ainda mais importante, o ESVP foi projetado para ser agnóstico de modelo. Isso significa que, independentemente de qual novo modelo liderar os benchmarks nos próximos meses, seja Claude Code, Codex, Gemini ou qualquer outro que surgir, o protocolo funciona como uma camada estável que o agente pode consumir sem acoplamento às particularidades de nenhuma API ou produto específico. O projeto ainda está em fase de estudos e testes internos, mas o repositório já está disponível publicamente no GitHub oficial da Entropy Lab para quem quiser acompanhar a evolução ou contribuir.

Os diferenciais de Anderson Melo como desenvolvedor mobile sênior na era agêntica

Vale destacar que meu engajamento nesse projeto não é casual. Ao longo da minha trajetória como desenvolvedor mobile sênior, construi uma visão que combina domínio técnico profundo em mobile, experiência com arquiteturas mobile nativo de alta complexidade e um olhar cada vez mais aguçado para o papel que a IA agêntica vai desempenhar no futuro do desenvolvimento mobile.

Muitos profissionais encaram a IA como uma ferramenta de produtividade isolada, mas eu acho precisamos de integração de agentes de IA no ciclo de desenvolvimento mobile e isso exige uma camada de engenharia que vai muito além de prompts bem escritos. É preciso pensar em protocolos, contratos de estado, reprodutibilidade de ambiente e rastreabilidade de execução. Essa combinação de conhecimento mobile e desenvolvimento de software em conjunto com infraestrutura otimizada com pensamento sistêmico sobre IA agêntica é o que vai fazer diferencia do trabalho e abertura de espaço relevante em inovação técnica.

No blog de andersonmelo.com você encontra outros artigos que exploram esses temas com a mesma profundidade técnica e acessibilidade que marcam meu trabalho. E nos projetos de andersonmelo.com é possível acompanhar de perto as iniciativas em andamento, incluindo o ESVP.

O que esperar dos próximos meses

Claramente, o campo da IA agêntica está se movendo rápido. Novos modelos, novas capacidades de raciocínio e novas ferramentas surgem a cada ciclo. E nesse ritmo, a tentação é sempre adotar o modelo mais novo e confiar que os problemas anteriores foram resolvidos.

Entretanto, como este artigo buscou mostrar, a natureza probabilística dos transformers não desaparece com um novo lançamento. O que muda é o nível de sofisticação dos erros, e os agentes mais capazes, paradoxalmente, podem produzir alucinações mais convincentes e mais difíceis de detectar.

Por isso, a resposta mais honesta para a pergunta do título, "Alucinações em IA são inevitáveis pelo design. Como podemos melhorar isso?", não está apenas nos modelos. Está nas camadas de protocolo, validação e estrutura de ambiente que tornam o desenvolvimento agêntico mais confiável, auditável e resiliente.

O ESVP é uma aposta nessa direção, ainda em construção e aberta para a comunidade. Se você trabalha com desenvolvimento mobile, tem interesse em IA agêntica ou quer contribuir com um projeto que está pensando nesse problema de forma séria, vale muito acompanhar a evolução do protocolo em esvp.dev e entrar em contato pelo andersonmelo.com/contato para conversar diretamente com Anderson Melo, desenvolvedor mobile sênior que está no centro dessa iniciativa.

Alucinações em IA são inevitáveis pelo design. Como podemos melhorar isso? Provavelmente não de uma vez. Mas com os protocolos certos, podemos tornar os erros menos fatais e os sistemas mais confiáveis do que qualquer modelo sozinho conseguiria ser.

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CD

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